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Ciclo de Regatas na Bahia - Baía de Todos os Santos

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Foto: Pedro Campos

“O que o Caribe pode ter de mais belo do que isso?”, pergunta o maravilhado executivo, Guilherme Marback, ao desembarcar de seu veleiro, logo após ancorá-lo em um banco de areia, ao lado da Ilha do Medo - uma das 56 ilhas que compõem a Baía de Todos os Santos (BTS), Bahia.

Esta não é uma resposta fácil. Afinal, já chama a atenção o simples fato de poder ancorar o barco em um local em que a lâmina de água à proa não supera um metro e meio e abaixo da quilha do veleiro o ecobatímetro acusa mais de oito metros de profundidade. Ao contrário de outros locais, aqui, na maré baixa, a âncora não é jogada, mas passada pela proa para as mãos de outro velejador que simplesmente a deposita na praia.

Grupo desembarcado (estamos em três veleiros: Tom II, Orion e Miss Bianca), Marback, esposa e os dois filhos atravessam o banco de areia para se juntar às outras duas tripulações. Outra surpresa nos aguarda, do outro lado do banco de areia, que não tem mais de dois metros de largura, a lâmina d’água é de aproximadamente 60 cm e a água é quente e cristalina. Momento em que surge a segunda expressão: “Isso aqui é um paraíso”.

E, pelo que tudo indica, é um paraíso preservado. A mesma reação do executivo, em relação à BTS, teve o naturalista Charles Darwin, pai da Teoria da Evolução das Espécies, quando aportou por aqui “A elegância da relva, a novidade das parasitas, a beleza das flores, o verde luzidio das ramagens, e, acima de tudo, a exuberância da vegetação em geral, foram para mim motivos de uma contemplação maravilhada. Para o amante da história natural, um dia como este traz consigo uma sensação de que jamais se poderá, outra vez, experimentar tão grande prazer”, destaca o cientista no livro ‘Viagem de um Naturalista ao Redor do Mundo’.

Em seus 110 km², 200 km de borda e 56 ilhas, a BTS ainda guarda para o velejador outras surpresas capazes de encantar e criar novas expectativas. Durante todo o ano, a água é morna e é difícil resistir aos banhos de mar a cada ancoragem; o vento e o sol são presenças garantidas; o número de ancoradouros é vasto; e, principalmente, velejar pela baía significa passear pelo berço da história do país.

“Isso aqui é mágico. Você ancora próximo à praia, anda alguns metros e está dentro do Forte de Salamina. Volta para o barco, levanta âncora e, daqui a pouco, está sendo ultrapassado por um saveiro - barco que usa uma tecnologia de quatrocentos anos atrás. Isso, sem falar das igrejas que, além de orientar religiosamente os antigos moradores da região, serviam como pontos estratégicos para evitar invasões”, diz o velejador e empresário Atila Bohm.

Foram exatamente cenas como estas que fizeram com que o empresário, após quatro anos e meio vivendo a bordo de um veleiro com a família, escolhesse Salvador para retomar a vida em terra. “Vivendo aqui, eu trabalho durante a semana e, na sexta-feira à tarde, levanto velas e saio em direção a um dos pontos da BTS. Nos últimos três anos, deixei de sair quinze finais de semana, mesmo assim, ainda não conheço todos os bons ancoradouros da região”, diz Bohm.

Liberdade e família

Para o empresário, esta rotina semanal, que engloba toda a família, só é possível porque o sistema de ventos na baía ajuda. “Aqui, são raras as vezes em que a velejada não é confortável. Dificilmente, temos de enfrentar um mar picado e, quase sempre, velejamos com ventos de través, orça folgada ou empopado. Acredito que este é um dos motivos principais para que Salvador seja uma das cidades do litoral em que vi o menor número de velejadores de varanda (expressão usada para caracterizar donos de barcos que falam muito, mas que pouco utilizam seus veleiros)”, diz o velejador.

Outro fator que acaba influenciando o número elevado de barcos circulando pela BTS nos finais de semana é que, em duas ou três horas após deixar a cidade de Salvador, já não há mais qualquer resquício de metrópole. “O tempo que levo para ir de São Paulo a Ubatuba para pegar o barco é o mesmo que gasto para sair de Salvador e chegar em um paraíso como Ilha do Cal ou do Medo (foto). Um pouquinho mais de tempo e entro pelo Paraguaçu, onde navego pela história do Brasil”, diz Atila.

Para Marback, estes foram fatores predominantes no momento de decidir se continuaria em São Paulo ou voltaria para Salvador. No final de 2002, quando recebeu um convite para deixar a diretoria de um banco e assumir a área financeira e administrativa de uma faculdade em Salvador, pesou muito na tomada de decisão, a qualidade de vida que poderia proporcionar aos filhos vivendo às margens da BTS.

“Eu cresci velejando nessa baía. Desde que me conheço por gente, eu e meus primos saíamos em um ‘bico de pena’ que meu avô comprara para os meus tios, quando estes eram ainda crianças. Não conheço nenhum outro esporte capaz de agregar tantos valores e de unir a família como a vela. Esta era uma experiência que queria dar aos meus filhos”, afirma Marback.

No ritmo da natureza

Segundo o executivo, a primeira providência, ao chegar à cidade, foi mandar construir um barco, semelhante ao que utilizara na infância, para que, assim como ele, os dois filhos aprendam a navegar pela vida. “A vela agrega valores que estão se perdendo como percepção, equilíbrio com a natureza, solidariedade, harmonia com a família e fé. Estes são valores que quero dividir com meus filhos o quanto antes”, diz. Enquanto viviam em São Paulo e mantinham o veleiro em Ubatuba, Marback e família procuravam sair para velejar pelo menos uma vez por mês. Em Salvador, a média de velejadas já dobrou, mas “minha meta é sair quase todos os finais de semana. Não conheço nenhuma outra condição que favoreça uma atenção tão privativa dos pais aos filhos. Além disso, velejar é um ensinamento constante da sabedoria da vida”, afirma.

Passeando pela história

Segundo o historiador Cid Teixeira, 78 anos, para entender melhor a relação entre a vela e a BTS, basta que nos reportemos à época dos grandes descobrimentos e os séculos que se seguiram ao Descobrimento do Brasil. Quando não havia os canais do Panamá e de Suez e todo o produto proveniente do Oriente, consumido na Europa, tinha de fazer a volta na África, Salvador era um ponto estratégico para o mundo. Era o melhor caminho para evitar as calmarias do Atlântico Sul e atender as rotas das correntes marítimas e ventos favoráveis para estas viagens. Não é à toa que aqui, até a invenção do barco a vapor em 1860, foi a principal capital do hemisfério sul.

“Hoje, se fala muito em globalização, mas o primeiro movimento de globalização foi instituído em relação à BTS, que era o meio do caminho entre o Ocidente e o Oriente. Para o mundo, Salvador era mais capital do Atlântico Sul do que do Brasil. Tanto que, até 1549 (a BTS foi descoberta em 1501) não há nenhum documento que registre Salvador como cidade”, afirma o historiador.

Cid Teixeira garante que não foram raras as vezes em que, enquanto pensava neste período da história, chegou à conclusão de que “Deus jogava no nosso time. Não bastasse ser o meio do caminho para as Índias, aqui ainda possuía a melhor terra para o plantio da cana-de-açúcar, era excelente porto e grande produtor. Isso era quase covardia”, diz.

Nesta época, era comum que as águas da BTS abrigassem mais de 70 grandes barcos de diferentes nações do mundo. Essa exuberância e dependência das cidades em relação à BTS podem ser sentidas ainda hoje. Da época em que não existiam estradas, restam uns poucos saveiros. Os mesmos que eram responsáveis pelo comércio entre o Recôncavo e Salvador.

Os antigos fortes pululam em diferentes áreas da BTS e, para encantar ainda mais os turistas, o Governo do Estado promete revitalizar os fortes São Marcelo, São Paulo da Gamboa, Santo Antônio Além do Carmo e Forte do Barbalho. As construções das antigas fazendas ainda podem ser vistas durante os passeios. A cada milha náutica, surgem cenas e obras arquitetônicas capazes de encantar e emocionar os visitantes.

“Uma vez levei um grupo de gaúchos ao Forte São Marcelo, onde ficou preso e de onde fugiu Bento Gonçalves. Lembro que durante a visita foi um chororô só”, diz Teixeira.

Para facilitar que velejadores de diferentes regiões tenham acesso a todo este acervo, o Centro Náutico da Bahia criou as Bases de Apoio Naval (BAN) que funcionarão ao longo do litoral baiano. “A idéia é de que os velejadores que estão subindo a Costa Brasileira possam contar, a cada 30 milhas de litoral baiano, com bases de apoio, onde encontrarão ancoragens seguras, apoio de rádio e até estrutura para pequenos reparos. Sem dúvida nenhuma, isso permitirá viagens mais seguras e agradáveis”, diz José Raimundo Zacarias, coordenador do Centro Náutico da Bahia.

Veja mais fotos no álbum:

A Baía de Todos os Santos

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