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Foto: Pedro Campos

Imagine a alegria de um adolescente, ao ver o desenho que ele criou, cruzar o oceano, vencer 4,2 mil milhas náuticos, e ligar duas culturas diferentes como as da Bahia e da França? Foi o que aconteceu com a estudante baiana Ana Beatriz Vianna e os colegas Daniel de Sena, Wagner Vieira e Joel Sales.
Os desenhos estampados vieram nos barcos que saíram da França e chegaram a Bahia, nas aventuras dos velejadores solitários. Hoje (30), o Terminal Náutico da Bahia, no bairro do Comércio, foi o local deste momento de forte emoção para os alunos da Escola Estadual Vale dos Lagos, que tiveram trabalhos selecionados entre 3 mil estudantes de cinco países.
O concurso faz parte do projeto Label Bleue, que tem como objetivo dar um sentido social e humanitário à Regata Transat 6,50 Charrente Marritime, disputada por 84 velejadores desde La Rochelle, na França, até Salvador.
O idealizador do projeto, Daniel Henry destacou a importância da participação das crianças, que decoraram as velas com desenhos de valorização da ecologia, com o tema “O sol”.
Para ele, a regata ganha valor ao atrair os pequenos artistas da Suíça, França, África do Sul e Portugal, além do Brasil. “As crianças se sentem incentivadas a colaborar para evitar a poluição e defender a natureza”, afirmou o coordenador.
Um dos novos talentos, Daniel de Sena, posou para os repórteres fotográficos e cinegrafistas, sentado na vela onde havia desenhado uma regata sob o sol. A vela estava estirada ao chão, fora do barco, que passava por serviço de limpeza.
O contato com o mundo náutico fez com que Daniel buscasse mais informações sobre o tema. Embaixo do braço, carregava o livro “Barcos de Papel”, de José Monteiro, que apesar do nome, é só um romance policial. “É, não era bem isso que eu pensava, mas como eu vou ter mesmo de fazer a resenha pra escola, vim lendo no ônibus, no caminho”, afirmou o aluno.
Por coincidência, ele tem no sobrenome materno uma das principais referências da França, de onde partiu a regata. “O rio Sena é famoso, mas não sabia que a Ilha da Madeira, onde eles deram uma parada antes de vir pra cá, ficava em Portugal”, disse, feliz da vida.
O coração bateu mais apressado ainda quando Daniel foi convidado pelo velejador Stephan Bonvin a subir ao barco junto com os premiados. “Nunca imaginei que era tão pequenininho e que ele viajava sozinho tantos dias, 20 ou mais”, disse.
Após a visita a Bonvin, foi a vez de o grupo atravessar o píer para visitar o barco de Pierre Bresseuer, que carrega a vela com o desenho de Ana Beatriz. Nova emoção para o francês e para a baianinha de 14 anos. “Me senti muito orgulhosa em saber que meu desenho cruzou o oceano. Acho que isso ajuda a melhorar o moral da escola pública que hoje está esquecido. Gostei. Isso nos valoriza”, afirmou Ana, que já andou de lancha com amigos do pai, Nilson.
Ana ficou impressionada com a força necessária para içar a vela e gostou da música que vinha de dentro do barco, embora sem saber identificar o cantor francês. “É legal que o som funciona com energia solar, tá vendo esta bateria?”, apontou.
Ela quis saber ainda se o velejador passou por tormentas. “O desenho dela me deu muita sorte na Linha do Equador porque ali a gente passa muita tempestade, e depois enfrenta cada paradeiro!”, afirmou o navegador. “Obrigado, do fundo do coração”.
Monsieur Bresseuer estava feliz por ter encontrado a autora do desenho que ele trazia impresso na vela. Ele entregou para os alunos baianos um caderno com desenhos feitos por crianças francesas sobre o Brasil.
O reconhecimento de seu talento é tudo o que um aluno de escola pública precisa para fortalecer a estima e melhorar seu desempenho, acredita o diretor da escola, Cláudio Costa, que topou participar do projeto, logo ao receber o convite.
Costa contou com o professor de artes plásticas Nelson Portela para selecionar cinco entre 60 trabalhos. “Aproveitamos o tempo livre de uma greve de professores para manter os alunos em atividade e o resultado foi esta divulgação internacional”, disse.
Além dos quatro vencedores, a escola trouxe mais 15 alunos que também estiveram conhecendo os navegadores e chegaram até a arriscar novas obras de arte, em alguns rabiscos liberados num dos barcos pelo dono do veleiro, Fabrice Lucast.
A presença dos estudantes no Terminal Náutico é uma forma de a comunidade baiana se integrar às regatas internacionais, como defende o diretor da Superintendência de Desportos do Estado da Bahia (Sudesb), Raimundo Nonato, o ex-jogador Bobô.
As telas auto-colantes de 1,40 por 0,70 metro foram aplicadas nas velas dos 84 navegadores. Os últimos velejadores ainda estão em alto mar, com previsão de chegada para o próximo dia 6 de novembro.
Já o campeão da categoria Serie, Hervé Piveteau, aproveitou a manhã de hoje (30) para limpar o barco, com a ajuda da mãe, dona Genovéve, enquanto acompanhava a movimentação dos alunos no píer.
Pierre agora só quer passear
Pierre Bresseur, 27 anos, durante a travessia, enfrentou calmarias e muitas tormentas, mas ao chegar na Baía de Todos os Santos, o vento permitiu que abrisse o balão e se deliciasse numa tranqüila e bela velejada. “Isso aqui é maravilhoso, eu fiquei encantado com a cena que se abriu à minha frente”, disse. “Em outras oportunidades, voltarei”, disse.
A namorada de Pierre está chegando e ele pretende passear pela Baía de Todos os Santos, no Morro de São Paulo, de barco. As boas condições de navegação vão permitir mais inspiração para o casal, nas águas baianas. Mas pode ser também a despedida do barco, pois ele pretende vender o veleiro por 20 mil euros.
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