Ciclo de Regatas na Bahia - Piveteau: o campeão quer vender o barco

O arquiteto naval francês de 31 anos Hervé Piveteau (leia Pivetô) não tinha a menor pretensão de chegar em primeiro lugar entre os 43 concorrentes da categoria serie na Regata Transat 6.50/ Charrente Maritime-Bahia 2007. Completar o percurso de 4,2 mil milhas náuticas já tava bom demais pra ele. Mas, o vento foi ajudando, foi ajudando... e ói ele aí no píer do Terminal Náutico da Bahia. Sua chegada, na madrugada de sexta-feira, emocionou a mamãe, dona Genovéve, que veio para Salvador esperar o campeão. Ficou aflita, desde que soube que ele havia se distanciado do rival Stephanie le Diraison. Afinal, seu único filho, sozinho naquele marzão todo, à noite? Neste final de semana, Piveteau lembrou aos jornalistas os momentos mais tensos e divertidos da incrível história do campeão que quer vender o barco e não tem certeza se gostaria de voltar a enfrentar o reino de Netuno.

Como foi atravessar de La Rochelle, na França, a Salvador, passando pela Ilha da Madeira, no Funchal, pela primeira vez?

Resolvi embarcar num serie (lê-se serrí), por ser mais barato, pois não tenho tempo para trabalhar na construção de um barco, como na categoria protótipo. Meu serie não é novo, mas custou 65 mil euros de investimento no barco, mais outras despesas, num total de 94 mil. Agora, quero vender o barco...

Vai vender o serie campeão? Por quê?

Não sei se vou querer fazer de novo esta travessia. Fiquei me preparando por dois anos e já velejo há 20, desde que saía com os amigos, quando era pequeno. O serie é mais acessível e assim realizei um sonho de criança. É impossível comparar com os barcões da Regata Jacques Vabre, que está chegando no dia 15 de novembro a Salvador.

E aí, teve medo? Foi legal atravessar? Por que desistir, sendo campeão?

Foi uma coisa de louco. Não sabia que seria assim! Em 2009, talvez, eu volte a participar, mas não sei ainda. Por um momento, pensei que fosse fantástico, mas é sempre difícil. Tem muitos amigos em terra que acompanharam e isso me ajudou muito mentalmente.

Deu a idéia que você não estava sozinho...

Sim, tive certeza que não estava sozinho. Passei por momentos difíceis, como quando quebrou uma peça que sustenta o mastro. No Ponto of Noir, na Linha do Equador, a navegação foi muito difícil, cansativa, porque não podia dormir. Passei quatro dias na Linha do Equador, sem dormir... Ali, é fogo: entrou, não sabe quando sai.

Que outros problemas sérios você enfrentou?

Granizo, muito relâmpago, ventanias. Eu sou um velejador diferente: prefiro a calmaria. É mais difícil materialmente falando porque o barco não anda, mas você pode dormir e comer. Quando o vento fica calmo, é só esperar. Quando ele chega, a gente é que fica mais calmo.

E os adversários, deram trabalho?

Só Stephanie Lê Diraison, que deu de tudo até as Ilhas Canárias. O vento deu bom pra ele ali, mas começou a quebrar. Outro que correu bem foi Francisco Lobato, um português, que chegou a avançar 30 milhas na minha frente, mas acho que ele quebrou alguma coisa, pois logo depois ficou 150 milhas pra trás.

Qual a maior dificuldade em pilotar o serie, um barco de 6,5 metros e 1,2 tonelada?

É difícil tirar o pé do acelerador. A gente só pensa em parar quando quebra. Teve uma hora que o barco adernou, passei um tempo para arrumar tudo de novo. Pensei comigo: basta! O humor fica muito variável, comi três vezes ao dia, comida hidrolisada. Quando o vento está contra, o barco não anda. O sono é difícil. Dormi entre zero e oito horas por dia, a depender das condições do vento, uma média de cinco horas.

Tomou susto, além dos granizos?

Passou um bichão perto do serie, não sei até agora se foi uma baleia ou um golfinho, mas pelo tamanho era uma baleia...

Tubarão?

Não, tubarão não vi, mas tive medo.

Tanto sacrifício, investimento de 94 mil euros... vale a pena tudo isso para tomar uma caipirinha do lado de cá do oceano?

Vale sim... (risos)

Então, por que pensa em não repetir a dose em 2009?

A aventura é maior que eu pensava. Muito longa. Eu sabia que era longe, mas não pensava que era tanto. Os 10 últimos dias foram terríveis, eu sempre em frente, fiquei todo molhado o tempo todo, o clima muito úmido. Passei muito estresse do Funchal pra cá. Saí de La Rochelle dia 6 de outubro ao meio-dia e cheguei aqui dia 26 a 1h52min, de madrugada. Foram 19 dias e 14 horas, por aí.

Você vai terminar vendendo este serie pra comprar outro, mas lembre de agregar ao preço do barco o valor de ter sido campeão da regata.

É, talvez compre outro. Até porque este meu serie é de 2004, não é novinho. Foi uma imensa satisfação de saber que fiz a regata, e ganhar, foi ainda mais empolgante. Mas a aventura me fez pensar muito na vida. Senti que voltei mais calmo e voltado para a família, pai, mãe e irmã, que vivem em Vendée, perto de Nantes.

E agora, vai dar um tempo?

Sim, a idéia é descansar até o dia 7, quando será a premiação. Vou visitar os locais interessantes da Bahia, já que é minha primeira vez no Brasil. Quero fazer festa, mas também queria tirar 10 dias só pra dormir. A chegada dos colegas não deixa.

Como arquiteto naval, você gostaria de conhecer estaleiros baianos, como o de Valença?

Sim, tenho interesse pessoal.

Além de velejar, você pratica outros esportes?

Natação, esqui...

Perdeu peso, melhorou a saúde, tá com a mão calejada, como é que está na volta?

Estou procurando uma balança, não perdi muito peso, só cerca de 5 quilos. Não me desidratei, apesar de ter jogado parte da água fora como forma de perder peso no barco. Saímos com os 100 litros obrigatórios e logo joguei metade fora. Um desperdício de boa água mineral, uma pena, mas é o regulamento.

E deu pra comer direitinho, além deste rango desidratado que você falou antes?

Comi pasta de macarrão, atum, arroz, salada pronta, comida hidrolisada, cereais e chocolate. Chocolate é bom pro moral. O último pedacinho foi na chegada.

E bebida alcoólica, pode levar?

Os corredores levam um pouco, mas é boa em outro momento. Se ficar embriagado, na ressaca o moral fica muito baixo. Bebi champanhe, francesa, claro, quando passamos pelo Equador, porque é tradição, em um ritual para Netuno. Um pouco pro mar e o resto pra gente. Depois, a gente arremessa a garrafa ao mar. A idéia é ganhar a simpatia de Netuno e o deus dos ventos. Mas a champanhe fica quente, não tava boa. Não sei como ele deu tanta ajuda.

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