Mais de 15 dias de navegação solitária, sono interrompido de meia em meia hora, em média, comida só de conserva, muita incerteza em relação aos ventos e, ainda por cima, a correnteza contrária até chegar ao Porto de La Forêt-Fouesnant, na França.
Parece filme de aventura naval, mas este é o desafio que aguarda os 15 skippers dos barcos monocascos de 60 pés, após a largada da Regata Ecover B to B, programada para a manhã desta quinta-feira (29), no píer do Yacht Clube da Bahia, na Barra.
O barco da imprensa vai para o mar por volta de 10h, saindo do píer do Terminal Náutico da Bahia. Segundo os organizadores da regata, a largada representa uma oportunidade rara por conta do colorido e da velocidade dos veleiros de grande porte situados a curta distancia.
Os 15 monocascos ficarão alinhados nas proximidades do píer do Yacht, com as velas abertas, proporcionando uma imagem de rara plasticidade e colorido à Baía de Todos os Santos. Depois de os veleiros realizarem pequenas manobras, o tiro de largada vai sinalizar o momento da partida e é aí que tudo pode acontecer.
Ninguém quer que aconteça nada de errado, mas este tipo de procedimento de largada pode até ocasionar colisão, caso dois ou mais barcos saiam embolados, pois a velocidade dos veleiros e a proximidade entre eles dificultam as manobras.
Mudanças
O momento de partir se aproxima e agita os velejadores no Terminal Náutico da Bahia, onde eles preparam as embarcações para uma aventura marítima inesquecível, dadas as condições adversas da regata, que não tem assistência de barcos de suporte.
A regata vai da Bahia até a região da Bretanha, na França, daí o nome B to B, que são as iniciais dos pontos de partida e chegada. A competição aumentou de importância porque vale como classificatória para a Vandeé Globe.
Competição de volta ao mundo, a Vandeé Globe é o que se pode considerar o sonho de todo velejador de primeiro nível a fim de obter fama internacional. São 90 dias em solitário e só se pode usar suprimentos de água e comida embarcados na largada.
Entre os skippers, como se denominam os velejadores no jargão da náutica, um dos mais empolgados é Derek Hartfield, do barco Spirit of Canadá. “Não é fácil seguir esta rota porque as correntezas são contrárias e é preciso trabalhar bem o vento”, disse.
Hartfield passou a tarde de hoje (27) ajustando peças do barco, pois sabe que, em alto mar, não terá apoio, conforme o regulamento. O skipper disse que é preciso testar os tipos de vela apropriados para aproveitar melhor as mudanças do vento.
Descansando
Na estratégia a ser empregada durante o percurso, Hartfield destaca a importância de saber trabalhar também o movimento chamado de “contravento”, que, como o nome indica, ocorre quando a embarcação enfrenta o vento na direção contrária. “Aí, é preciso manobrar e calcular certo. Com o vento soprando no sentido oposto ao nosso destino, qualquer erro pode custar um tempo precioso neste tipo de competição”, diz.
Ao contrário do que ocorreu com outras 14 embarcações, o Spirit of Canada não veio com a Regata Jacques Vabre, que trouxe para a Bahia este mês os mais rápidos veleiros do mundo.
Segundo um dos organizadores da regata, Luís Serpa, a previsão do tempo na Bahia indica que o vento mais forte deve entrar no final da manhã, por isso a largada está programada para as 11 horas.
Entre os barcos inscritos, o Cheminées Poujoulat, patrocinado pelo conglomerado Landolt & Cia., não tem ido muito longe na Baía de Todos os Santos, por causa da ameaça de temporal. Mas os treinos têm servido para ajustar as peças.
O skipper Bernard Stamm disse que não há qualquer problema com o barco e a idéia de ir para água tem mais a ver, segundo ele, com o “hábito de velejar sempre que possível”. Como precaução, Stamm pretende permanecer descansando hoje (28).
Repentinas
Já o instrutor Sérgio Lobo, que presta serviços no Terminal Náutico da Bahia, alertou os skippers para evitar exigir demais dos equipamentos, às vésperas da largada, pois um conserto mais difícil agora poderia até eliminar o barco.
Segundo Lobo, foi o que aconteceu com um dos monocascos, que teve uma quilha avariada e outros problemas com o mastro. “O pessoal ainda tentou armengar, de boa. Mesmo assim, não era recomendável enfrentar uma regata dessa”, disse.
Os barcos de oceano que participam da B to B são todos da Classe Aberta Internacional de Monocascos, chamada de Imoca, que são projetados para atender às regras de estabilidade e capazes de resistir a repentinas e violentas tempestades.

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